
A resolução de todos os arranjos para terminar a minha viagem foi quase que imediata.
Falei primeiro com minha família e depois, fui à Polícia cancelar o registro. Até as cinco horas da tarde, a tarefa mais difícil foi tentar remarcar o vôo para o sábado à noite. No call center, me mandava para o site e, no site não havia informação nenhuma! O importante era ir para Londres e arrumar minhas coisas.
Na escola, não houve explicações, apenas burocracia. Apenas para meus colegas que se mostraram chateados por eu estar indo mas me desejaram sucesso no Brasil. Convidei a todos para vir ao país e lhes disse que ganhei o interesse de conhecer a Romênia e a Bulgária um dia. Trocamos e-mails, tiramos fotos e senti que tinha conquistado a simpatia deles, assim como fizeram comigo. Me despedi dizendo que o piloto "Kamikaze" (como fui apelidado) mandaria notícias e que a "Romenia and Bulgaria RULES!!!" Cheguei em Woodside Road, expliquei a família que estava indo para Londres no dia seguinte e de lá, viria para o Brasil. Minha homestay mother deu apenas um leve "Ohhh...really?!" com expressão de pena e ficou por isso mesmo. Então, subi para arrumar minhas coisas, sorrindo de satisfação por colocar tudo de volta na mala.
Jantei colocando a conversa por orkut com meus amigos em dia e a parte mais difícil foi dizer a Helder que eu estava indo embora. Ele ficou furioso e descreveu inúmeras opções mas a maioria ilegal ou incerta. O erro já havia sido cometido por mim. O programa Sandwich. Pareceu-me o mais propício, uma vez que o serviço é garantido. Mas não houve curso de língua inglesa regular e sim uma preparação para servir clientes. Por este motivo e por não suportar gastar mais um "pound" que decidi ir o quanto antes embora. Não havia opção de deixar o curso e fazer outro pois meu visto tinha sido especificado para este programa e se, nos dados da polícia constarem que não mais estou matriculado, não passo de um imigrante ilegal.
Conversava e explicava para três amigos ao mesmo tempo, apesar de ter escutado muitos incentivos para continuar. O fato é que não era certo continuar errado e eu precisava sair deste erro o quanto antes. Assim, meu host father dizia a todo momento, num tom de brincadeira que eu estava datilografando toda a internet... Percebi que estava era irritando ele ao ocupar o espaço no computador. Agradeci uma vez mais e subi para terminar de arrumar a mala.
Como combinado, o host father me levaria à estação da cidade de manhã, para que eu pegasse o trêm das oito e vinte para Waterloo. Saí do quarto, deixando dois cd´s de música brasileira, um pote de "Nescafé" e a chave da casa ao lado da televisão. Minha host mother desceu para se despedir de mim e me perguntou se eu tinha devolvido a chave da casa... Falei que estava no quarto, junto a alguns presentes e meu e-mail para um possível contato. Agradeci a hospedagem mais uma vez e fui para o carro. Sinceramente não me importo se gostarem ou não dos presentes...
No carro, o termômetro marcava exatamente 0ºC e a máxima prevista eram 8ºC. O dia estava claro e o sol tímido, não conseguia ainda derreter a fina camada de gelo nos passeios e nos carros. Em sete minutos chegamos na estação e me despedi do meu host father com um aperto de mão (os Ingleses não abraçam com facilidade, percebi isso na primeira noite, tentando dar um beijo de boa-noite no rosto da host mother mas a expressão de estranheza dela me demoveu da intenção) e ele me desejou apenas "cheers". O que realmente aconteceu a seguir!
Entrar no expresso foi confuso de início. A porta estava fechada e não vi ninguém embarcando. "Como se entra nisso daqui?!" Ao lado da porta, um círculo metálico rodeado pela palavra "open" esclareceu todas as minhas dúvidas: coloquei a mão por cima do círculo e a porta se abriu instantâneamente. O mesmo ocorreu para acessar a cabine de passageiros. Quando entrei me senti desconcertado: Estaria na primeira classe? As poltronas estava conservadas e o ambiente era bem confortável. Sentei-me e acomodei minha mala no chão. Pontualmente, às 8:20, o trêm deixava a estação em direção à Londres e uma hora e meia de viagem, ele chegava à Estação Waterloo. Uma cruel piada dos ingleses para com os franceses. A estação fica como o ponto final do Euro Star, principal ligação entre os dois países e assim, os franceses chegam a uma estação que tem como o nome a última derrota de Napoleão na europa e o fim da hegemonia francesa no continente. Para um povo orgulhoso e lendário nas rixas é um "tapa de luvas".
Combinei com Helder de encontrar às 10:00 e esperei por um pouco. Era um caos internacional. Nacionalidades diferentes transitavam pela estação. Assim tive a primeira impressão de Londres: Cosmopolita! Será que aqui, meu caminho seria diferente? Helder chegou e fiz algo que em dois anos de amizade nunca tinha feito ao cumprimentá-lo. Usualmente, apenas um aperto de mão. Quando ele estendeu a mão para me cumprimentar, pulei literalmente no pescoço dele! Aliviado por encontrar um rosto familiar no meio de tantos estranhos. Helder riu bastante da minha reação... Provavelmente sem entender... Não faz mal. Procuramos um café da manhã e fomos direto ao Mac Donalds. Isso mesmo! Há refeições com ovos e bacon até um determinado horário da manhã na lanchonete que fica mesmo na estação. Depois, ele conseguiu conversar com a atendente da British Airways e me ajudou na remarcação. O vôo sairia sábado mesmo. Não queria atrapalhar a rotina dele, já que em apenas quatro dias em Londres ele havia conseguido um emprego. Maldita hora em que escutei: "Não vai pra lá dependendo de um serviço no inverno, todos demoram mais ou menos um mês para achar!" Duvidara da minha capacidade e pagava caro por isso...
Levei a bagagem a um guarda-volumes e fiquei livre para começar um tour por Londres! Perto de Waterloo, caminhamos até a roda-gigante London Eye (olho de Londres). No caminho, uma bela surpresa. Os artistas independentes tocam música em locais públicos e os transeuntes contribuem com moedas. Parei diante de uma bela moça e fiquei escutando o som do violino. Lembrei da conversa na sala de aula "O som é capaz de curar muitas coisas..." e realmente isso aconteceu. Me voltei para Helder e ele me perguntou, reparando na minha repentina satisfação: "O que ela disse?" e eu respondi "Não foi ela... Foi o violino..."
Quando me vi na frente do Tâmisa, fiquei estático! Tudo era tão lindo! Grandes mansões, turistas pra caramba e finalmente, o parlamento. A arquitetura é fantástica e o Big Ben é realmente o símbolo incontestável da Inglaterra! Atravessamos a ponte e logo em baixo do imponente relógio, bateram-se as doze horas do dia. Cada som era único e hipnótico. Amei de paixão. Apesar de toda esta beleza, o rio Tâmisa tinha a mesma coloração de um sopão Maggi!
Depois do parlamento, Abadia de Westminster. Não tenho muita curiosidade por catedrais, só passei pela entrada. Mais interessante foi a cabine telefônica tão famosa. Uma porqueira pelomenos a que eu entrei - os ingleses às vezes parecem se esquecer que são conhecidos pela educação... Visitei os parques abertos da capital, lindos mesmo em pleno inverno e o palácio de Bukingham. Três portais guardavam a entrada, cada um voltado para uma ex-colônia do Império Britânico inscritos nelas: Austrália, África e Canadá. A bandeira hasteada anunciava que Sua Majestade estava "em casa". Helder me disse que havíamos perdido a troca da guarda que acontecia às 11 horas da manhã... Então, pessoal programem-se para assistir e depois ir até o Big Ben escutar as badaladas do meio-dia! Compensa e muito!
E a fome bateu... Fomos para uma rua bastante movimentada, perto do cinema Odeon. Os cinemas são absurdamente caros! Em torno de 10 libras (quase 40 reais) para assistir um filme! E não existem "meia-estudante" só desconto de 1 ou 2 libras. Pelos preços, acabamos almoçando no Mac Donalds... Lotado! Todos os Londrinos foram educados para dar informações e é claro, a porcentagem mais significativa da cidade (os estrangeiros) também! Algo que Helder comentou comigo e que acabei reparando... Os ingleses vão a restaurantes e almoçam ou jantam sozinhos... Não é muito comum grupos de amigos conversando por aqui. Saímos do Mac e fomos direto para London Eye para encontrar com um colega de sala do Helder. O japonês Kento. Ele chegara a um mês e planejava ficar um ano em Londres. Nos contou como era o Japão e a cidade aonde ele nasceu, o que estava achando de Londres e que gostaria de ao voltar para o Japão, ser músico. Comentei que no Brasil isso é um pouco difícil pelo pouco incentivo dado à cultura.
Achamos um jeito de chegar até a atração que eu martelava na cabeça do Helder desde o momento em que chegara: British Museum!!! E fomos felizmente, de double deck bus! O ônibus vermelho é bem confortável mas se você estiver subindo a escada para o segundo piso, se segure. Se não fossem os anos de treino nos coletivos de Belo Horizonte...
A entrada do museu era majestosa... Na mesma idéia que os templos greco-romanos. Por isso me preocupei de quanto custaria a entrada. Não haviam caixas! Não custava nada!!! A entrada era de graça para todas as galerias exceto a exposição chinesa "The last Emperor" que ficaria no museu até abril. Corria por todos os lados para ver estátuas egípcias, figuras impressionantes dos grandes faraós como Ramsés II e Amenemosis III... Disparava a explicar em inglês para Kento cada pedra e objeto do acervo egípcio que eu conhecia. Segundo ele, eu deveria trabalhar ali! E era uma boa idéia! Ele me disse também que tinha ouvido falar de Belo Horizonte no Japão! Que era uma cidade conhecida para quem queria passar finais de semana e descansar, para a minha surpresa e orgulho.
Exposições mesopotâmicas, gregas e romanas. Me perdi pelas galerias do museu e foi o melhor momento que passei na Inglaterra, sem dúvida! Tanto que perdi a hora e tinha que estar em Heathrow às 18 horas. Eram quatro da tarde quando me dei conta e com alguma dificuldade, conseguimos sair do museu. Me despedi de Kento e desejei-lhe sinceramente todo o sucesso que Londres pudesse lhe oferecer. Helder me acompanhou à Waterloo para pegar minha mala e entramos no labirinto chamado "Subway" ou para os londrinos, "Tube". Ele me explicou como chegar à estação do terminal 4 de Heathrow e nos despedimos. Disse-lhe que gostaria que ele tivesse muito sucesso, conseguisse tudo o que vinha buscar e que estaria torçendo muito por ele. Apesar de chateado por eu estar voltando, ele me pediu apenas para me avisar ao chegar no aeroporto.
A viagem de metrô foi longa e pensei em tudo o que tinha vivido até ali, no que o pessoal diria e em tudo que eu estaria deixando ou estaria ganhando. O caminho já estava traçado e agora as decisões seriam as de um adulto e não de uma criança cheia de vontades.
Em Heathrow, segui uma rampa até o acesso aos elevadores gigantescos para acomodar as malas. Terceiro andar... Departures... Balcão no final do lado direito... Remarcação... 51 libras... Vôo doméstico também remarcado... Check-in... Embarque internacional... Pepsi e chocolate milka... Revista GLBTT para saber como a Inglaterra "Arco-Íris" pensa, consume, vive e discute... Internet a 1 libra 10 minutos para avisar que o vôo sairia às 21:30... Espera... Lojas e mais lojas... Estrangeiros... Conversa com um funcionário somaliano sobre como ele chegara à inglaterra, o que achava do país... Espera... Internet... Faltam 50 minutos... 40... 30... British Airways flight 247 to "Sao Paolo" and Buenos Aires (por que eles conseguem dizer Buenos Aires e não São Paulo?!) boarding at gate 21...
Correria, aonde estava o portão 21?! Aki! Mais corredores... Vou perder o embarque?! Corredores... Aiai... Corre... Corre... Mais corredores... Alguns passageiros... Corre mais! Cheguei!
Na frente do balcão do portão 21, uma fila monstruosa dos passageiros BA247. Foi passando o tempo e tiveram que permitir o acesso pela entrada da primeira classe para que os da classe econômica pudessem embarcar à tempo. Ao me aproximar do funcionário, reparei no crachá o sobrenome "Afonso" e nas bandeiras listadas, a de portugal. Entreguei o meu tiket e ele disse "Thank you" e eu, "De nada". Divertido, ele levantou o rosto e me encarou perguntando "Que é que você tá correndo, hein? Hahaha..." Foi bom ouvir mais um pouco de portugues naquele aeroporto tão cosmopolita!
Embarque feito e me senti bem mais confortável. O piloto se apresentou e decolamos eram quase dez horas da noite. Não foi um vôo tão turbulento como o da vinda. Terminei de assistir Tootsie (adorei!) e pela terceira vez, Brokeback Mountain! O jantar foi agradável mas o vinho estava extremamente seco. Dormi pouco e de café da manhã, ovos mexidos, salsicha e cogumelos. Pousamos em Guarulhos com uma leve, mas persistente chuva. Na hora em que o 747 tocou o chão do Brasil, me senti muito bem.
Corri para pegar minha mala e fazer o check-in na Tam. Embarque imediato, vôo saindo às 8:30 (e eu havia chegado às 7:10). A sala de embarque doméstico estava abarrotada de gente. No avião esperamos uma hora pois houve um problema de "No Show" de 50 passageiros. O vôo foi ótimo e a aterrisagem em BH foi o melhor!!! Só restava um problema. Devia chegar na rodoviária de Belo Horizonte para pegar o ônibus de meio-dia para Patrocínio e o primeiro ônibus do aeroporto para BH saía 11:15 e levaria uma hora. Corri até o guichê de pagamento do estacionamento perguntando quem iria para a cidade, se poderiam me dar uma carona. Encontrei um senhor que ia para a Pampulha(região de BH) e de lá pegaria um taxi. Eram 11:40 quando cheguei ofegante no balcão da companhia União e solicitei minha passagem. Comprei três pães-de-queijo e um refrigerante Mate Couro para matar a saudade. E como estavam deliciosos!
18:50, cheguei em Patrocínio e desci do ônibus jogando a mochila para longe para poder abraçar minha mãe, minha irmã e minha tia. Chegando em casa, alguns dos meus amigos estavam me esperando e fizeram daquela a melhor boas-vindas de que tenho notícia!!! Muitos casos, poucas fotos e alguns planos. Fiquei bem, estou bem... Um final feliz e um recomeço promissor.
E por aqui eu fico, pessoal...
É isso ae, acontece...
E vamo-que-vamo!!!!!!!!!!!!!!!
Abraço pra você!
14 de janeiro de 2008